Eu sou o Pooh!
Eu crio histórias mentais com pessoas que me chamam atenção na rua. Isso não está sob meu controle, me sinto estúpida por isso. Parece que tem algo de errado com meu encéfalo, eu sei que tem. Há quase quatro anos um psiquiatra, o qual eu confiava muito, me diagnosticou com TDAH, mas deixou claro que o diagnóstico não estava "fechado". Hoje eu estava rolando o feed do Instagram e vi uma publicação sobre os personagens do desenho animado "As Pequenas Aventuras de Winnie the Pooh", que fazia uma relação com o comportamento de cada personagem e transtornos mentais. E parece que sou o Pooh:
Dificuldade em focar em algo, exibe pensamentos dispersos e desordenados, observações aleatórias e esquecimento constante. O ursinho também poderia ter baixa autoestima. Esta condição se manifesta na natureza impulsiva de Pooh e insegurança sobre seu peso, gerando timidez.
Texto disponível em: <http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-142270/>
Eu não tinha tido uma explicação mais simplificada sobre TDAH, tampouco havia pesquisado a fundo. Quando li "pensamentos dispersos e desordenados" e "esquecimento constante" eu percebi que isso falava muito sobre o que eu estava sentindo nos últimos dias. Eu me perco, me perco tanto que não encontro a mim mesma.
Talvez haja mais do que um ou dois problemas comigo. Eu gostaria de ser normal, ao menos me sentir normal. Ao mesmo tempo que gosto de ser diferente, de ter o algo a mais. O algo a mais é muito solitário. Eu escrevo aqui por isso, é solitário, só afasta, é ininteligível. Gostaria de ter mais confiança do que tenho para escrever, mesmo que seja para mim mesma, sou uma perfeccionista disfarçada, quando poderia ser apenas eu e ainda ser boa em algum ponto de vista.
E se houver conserto? Algum medicamento? Sinceramente sinto medo, os remédios de anos atrás tiravam minha essência, me dopavam. Por quê me dopavam? Sei que sentiam medo, mas ao mesmo tempo que tinham medo de não me ter mais, eles não me tinham, eles tinham clonazepam, risperidona e fluoxetina.
Eu não tive tempo de me conhecer ainda, e anseio por uma liberdade que sinto em alguns momentos, vislumbres, como quando estou tão rápida que sinto o vento bater em meu rosto e assobiar em meu ouvido.
Não sei quem sou, mas sei um pouco do que me tornaram. Conheço algumas hastes metálicas da gaiola que me aprisionaram. Não faça isso, faça aquilo, não seja assim, seja assim. Estão criando muitos obedecedores e poucos pensadores. Deve haver dois tipos de obedecedores, os que aceitam, se adaptam, e aqueles que não aceitam ordens e se perdem. Eu sou do segundo grupo. Os que se adaptam costumam procurar alguém para substituir o "general", um marido abusivo quem sabe. Os que se perdem não escapam dessa possibilidade, mas o sentimento de não pertencer a algum lugar ou não pertencer dentro de si mesmo é angustiante.
Eu ainda estou me acostumando a olhar no espelho, olhar e ver meu reflexo. Essa sou eu? Jura? Assim? É assim que me veem? Odeio me preocupar com a opinião alheia, mas me preocupo.
Eu crio histórias mentais com pessoas que me chamam atenção na rua. Eu quero controlar isso? Eu fujo de quem gosta de mim e gosto de quem se afasta. Isso é tão errado. É como buscar ser maltratada. Há tempos que a dor de cabeça não passa, mas estava com o comportamento tão mecânico que o estresse e a falta de café eram desculpas.
Então, desculpa, por minhas mãos sempre frias, meus pensamentos incompletos e ações incompletas, desculpa por transbordar tantas vezes os inúmeros sentimentos guardados. Eu sei que você está aí e quer sair, Beatriz.