Post-mortem

Nunca parei para imaginar como seria meu post mortem. Apesar de já ter idealizado a morte, nunca idealizei o póstumo.
É estranho imaginar alguém próximo partindo, afinal o que faz alguém imaginar algo assim? Doeria menos você se acostumar com a ideia?
As flores, as velas queimando, sentir o cheiro da parafina soprada pelo vento que mais parece um sopro do morto pedindo descanso, que na verdade está paralisado num caixão, tão gélido que não parece ser o mesmo corpo que tanto te aqueceu enquanto vivo.
Vivo, quente, constante, em movimento... o que te faz vivo? Você sabe que está vivo?
Algumas ideias fixam tão bem em nossas mentes, que esquecemos que estamos no piloto automático. E assim como coisas belas como o pôr do sol passam despercebidas, coisas absurdas como um ser vivo em sofrimento são naturalizadas.
Um corpo mutilado que não se lembra do sabor de uma refeição quente, nem de uma água que não tenha gosto de terra e nem mesmo de um banheiro que não seja em corredores ou cheire a podre. Um corpo que carrega uma alma que sente falta do abraço da mãe, do irmão, dos tios... da família, mas que agora divide um pequeno espaço com outros trinta corpos estranhos, amontoados e com o mesmo sentir. Corpos vivos, mas pessoas mortas para a sociedade, pela sociedade!
Crescemos vendo violência policial do outro lado da rua, acreditando cegamente que é um criminoso que apanha e que não há nada demais em ele estar sangrando e no chão enquanto ainda é chutado por um policial armado num Estado em que a tortura é (seletivamente) proibida.
Desumanizamos aqueles que nossos avós diziam ser malvados e sujos os isolando em prisões sem nenhuma dignidade, longe dos nossos olhos que julgam, mas não questionam o porque de chamarmos os homens maus de presos e não aqueles que prendem, isolam, torturam e matam os homens "maus".
O sistema penal é falho e os verdadeiros criminosos, em sua maioria, estão nas ruas. E atrás das grades estão muitos inocentes, pretos e pobres, porque o artigo quinto da constituição brasileira é uma farsa.
São mais de 812 mil vidas que você mal pode sentir de tanto ódio que ouviu e pregou, mal pode perceber que no seu post mortem, assim como no deles, haverá gente que perdeu alguém importante, um filho... um irmão... um amigo... e haverá velas sopradas pelo vento cheirando a parafina.

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