Como um pássaro criado em gaiola pode criar um pássaro para ser livre?
Ouvimos ao longo dos anos que nossos pais gostariam de dar a nós tudo que não puderam ter quando tinham nossa idade. Nem sempre conseguem, quando conseguem nem sempre é o que os filhos querem e nem sempre os pequenos demonstram a tão esperada gratidão. Sabe por quê? É sobre eles mesmos e o grau de importância que dão a tais coisas e não sobre as necessidades de seus filhos.
O tempo passa depressa, como filha quase me perdi sem saber quem sou, sempre foi sobre ter e não sobre ser, e quando não nos dão voz na infância, nos dizendo que só poderemos escolher quando formos adultos, crescemos com gostos que não são nossos e caminhos que não prezamos o suficiente para continuar caminhando. Talvez você tenha a sorte de distinguir o que é seu e o que foi plantado na sua cabeça, mas de fato o trajeto se torna mais longo, às vezes mais doloroso até chegar ao seu destino, aquele lugar que você sabe que lhe faz bem, aquela estrada que você sempre quer passar porque adora a vista dali e principalmente, que você pode ser você mesmo.
Os pais que querem dar o que não tiveram aos seus filhos também tiveram pais que queriam dar o que não tiveram aos seus filhos. A realidade é que somos seres completamente diferentes, mesmo que os filhos se espelhem nos pais no modo de pensar e agir, eles jamais concordarão em tudo ou irão desejar as mesmas coisas, afinal todos têm opinião própria. E por que não ensinar os filhos a voar em vez de cortar suas asas? Deixá-los voar não é permitir que desrespeitem a constituição e saiam testando limites, é dar escolhas limitadas, explicar os limites, observar à distancia sabendo que se encontrarem encrenca eles irão desejar voltar para o ninho, porque serão aceitos, porque eles têm uma família.
E eu, a filha que tanto se perdeu, se tornou a mãe que se encontrou, que gosta de explicar um milhão de vezes os fatos e consequências lógicas, de repetir os nomes das coisas quantas vezes forem questionadas ou até deixarem de ser engraçadas. Hoje, eu andei pensando que meu passarinho está crescendo, está precisando, lentamente, cada vez menos de mim, e os anos passaram tão depressa que depressa nem vamos ficar juntos tanto tempo como ficamos agora, e eu nem terei tanto cansaço para descrever nos meus versos. Eu me sinto criando com apego mas sem apego, com todo meu amor, mas sem expectativas concretas. É difícil dizer, mas pássaros voam, alguns para longe outros para perto, alguns morrem outros ficam bem velhinhos. Não há o que esperar, mas como qualquer passarinho, eu temo, temo que meu filhote se perca e temo ainda mais não estar aqui para aconselhá-lo. E tudo que eu quero dar a ele é a preciosa liberdade de ser quem ele é e ter seus próprios desejos.
Enfim, os pássaros que voam nem sempre sabem onde querem chegar, mas os engaiolados jamais poderão chegar a lugar algum. Você prefere ser referência ou o dono de um pássaro que quer escapar?