Earthquake

Faz um longo tempo que não escrevo. Talvez eu esteja um pouco ocupada com uma pessoa pequenininha que quase não aparece aqui, mas aparece na minha vida o tempo todo, e que também arrancou todas as teclas do meu desktop e acabei não consertando e desanimando com a escrita.
Há sempre algo nascendo e algo morrendo, mas nessa pandemia tem havido mais mortes do que nascimentos... eu não me refiro somente aos seres vivos, falo dos sentimentos, dos interesses, e dos relacionamentos.
Não me adapto tão bem às mudanças, gosto de saber exatamente o que vai acontecer, assim como gosto de assistir o mesmo filme uma centena de vezes, ter um pouco de controle numa vida que já achei que não me pertencesse, numa vida que nunca tive e nunca terei a certeza de que é real.
Às vezes esqueço alguns pedaços meus pelo caminho. Estou procurando um pedaço que encaixava todos os outros pedacinhos, como uma coluna vertebral que segura todos os ossos de uma costela, como um pilar de um prédio muito alto que mantém o equilíbrio de toda estrutura. Sou um prédio balançando, tremendo sobre a superfície, eu poderia causar um terremoto ao cair. Enquanto prédio, imóvel, pesado, arranha céu, frio, maciço... vejo as nuvens voando, parecem leves, limpas, fofas... eu poderia ser uma nuvem, mas eu nunca chovo, as portas e janelas ficam sempre trancadas, pareço um prédio abandonado com muito entulho guardado. Não me adapto tão bem às mudanças, gosto de saber exatamente o que vai acontecer, assim como gosto de assistir o mesmo filme uma centena de vezes.

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