Somos praga na Terra e agora terra eu cavo.

num banheiro frio

ecoava um miu

um filhote deixado

à espera da morte


com sorte

ou sem sorte 

alguém

da mesma raça que o abandonou 

o acolheu

o abraçou 


tão pequeno 

já sofreu

pela falta da mãe

pela covardia humana

que não deu em cana

e não doeu

tanto quanto doeu nesse gato

agora em minhas mãos

com os dias contados

sem seus irmãos

procurando o mesmo calor que o concebeu

mordendo meus dedos

na falta do leite que pouco bebeu


eu sinto muito, pequeno

por minha raça nojenta

que te condenou a essa morte lenta


somos praga na Terra

e agora terra eu cavo

como se cavasse um buraco no peito

e é tão difícil fechar


seu corpo rígido como pedra

e eu insisto em esperar

como se você fosse miar


agora coberto

tento aceitar

que fiz o certo

o que poderia

enquanto te assistia

padecer devagar

sem chance de aproveitar

o nascer

o viver

sem entender o porquê 

sozinho num piso frio

ele estava

tanto miava

e enfim partiu.

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